Performar não é o mesmo que aprender Sem intencionalidade pedagógica e mediação adequada, a inteligência artificial pode garantir o sucesso de entregas pontuais, mas é falha em consolidar o aprendizado[...]
Inovação e Tecnologia
04/02/2026
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Performar não é o mesmo que aprender
Sem intencionalidade pedagógica e mediação adequada, a inteligência artificial pode garantir o sucesso de entregas pontuais, mas é falha em consolidar o aprendizado real
O avanço da IA já é realidade em diversas áreas. No contexto educacional, sua utilização ganha força tanto para apoiar o trabalho docente quanto como ferramenta de otimização da aprendizagem. Os desafios, no entanto, são tão numerosos quanto as oportunidades. Basta pensar na atratividade de ter um “parceiro de estudos” capaz de oferecer respostas instantâneas e resolver problemas complexos em segundos.
Toda essa agilidade, entretanto, esconde um risco silencioso: evidências mostram que, embora os alunos performem melhor com o apoio da IA na resolução de tarefas, a apropriação real do conhecimento tende a deixar a desejar quando a tecnologia sai de cena.
Quando o desempenho vira uma máscara O recém-lançado relatório “OECD Digital Education Outlook 2026: Exploring Effective Uses of Generative AI in Education” destaca um estudo realizado na Turquia com mil estudantes na disciplina de Matemática do Ensino Médio. Ao comparar alunos que utilizaram uma IA convencional (GPT-4 padrão) com aqueles que estudaram de forma independente, utilizando apenas livros e anotações, o resultado chamou a atenção: os estudantes que recorreram à IA apresentaram um desempenho 48% superior nas tarefas.
No entanto, quando os mesmos alunos foram avaliados em testes sem consulta, os ganhos desapareceram. O grupo que havia utilizado a IA obteve um desempenho 17% inferior ao dos estudantes que estudaram sozinhos desde o início.
Esse fenômeno é conhecido como “efeito muleta” (crutch effect). A IA ajudou a concluir a tarefa e a melhorar a performance imediata, mas inibiu o esforço cognitivo necessário para a fixação das habilidades.
Performance x aprendizagem real: qual é a diferença?
Para compreender esses dados, é fundamental distinguir dois conceitos-chave:
Performance na tarefa: refere-se ao sucesso imediato em completar um exercício ou produzir um resultado final. É o “fazer agora”.
Aprendizagem real: diz respeito a uma mudança duradoura no conhecimento, evidenciada pela capacidade de transferir esse saber para novos contextos, sem apoio externo. É o “saber depois”.
O que acontece é que, ao oferecer soluções prontas, a IA permite que o estudante pule etapas essenciais do aprendizado, como a tentativa, o erro e a análise de falhas — justamente os processos que impulsionam o desenvolvimento cognitivo.
E tem mais: quando esse uso se torna recorrente, a dependência da ferramenta aumenta e a capacidade de pensar de forma autônoma fica comprometida, gerando o que o relatório chama de “preguiça metacognitiva”.
O antídoto: IA com intencionalidade pedagógica
A solução não está em banir a tecnologia, mas em redefinir a forma e o ritmo das interações com ela. Enquanto a IA genérica costuma ser um atalho ágil para a resposta final, a IA pensada para a educação deve atuar de forma mais lenta e gradual, como uma parceira no estímulo ao pensamento.
Em vez de entregar soluções prontas, ela convida o aluno a refletir e justificar suas escolhas. Nesse sentido, a IA educacional assume o papel de um tutor socrático, que:
Evita respostas diretas, estimulando o raciocínio próprio do aluno.
Oferece apoio gradual, com dicas que são retiradas ou substituídas à medida que o estudante ganha autonomia.
Provoca conflito cognitivo, desafiando suposições e incentivando a explicitação do raciocínio.
Nesse cenário, a mediação docente é indispensável. Cabe ao professor desenhar propostas em que a IA seja utilizada de forma intencional e acompanhar como ela orienta cada etapa. Em resumo: fazer da tecnologia uma ferramenta que ilumina todo o trajeto para a aquisição do conhecimento.
Com atenção a esses cuidados, a tecnologia pode trazer mais dinamismo, personalização e engajamento às rotas de aprendizagem, ajudando a solucionar problemas antigos e comuns na dinâmica escolar. É justamente o que precisamos, no lugar de apenas um atalho para a entrega da próxima tarefa.
Sobre o(a) autor(a)
Patrícia Affonso
Jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo, com quase duas décadas de experiência. Na Santillana, dedica-se a destacar inovações no processo de ensino-aprendizagem, boas práticas pedagógicas e conteúdos que apoiem o engajamento de escolas e famílias na jornada educacional.